quinta-feira, 23 de junho de 2011

BRUCUTU (ALLEY OOP) | O PRIMEIRO PERSONAGEM PRÉ-HISTÓRICO DO MUNDO




Olá, aos apreciadores de histórias em quadrinhos! Meu nome é Jorge Hata e, a convite do Junior, resolvi participar de seu blog. E para começar o bate-papo, vou inaugurar minha coluna comentando sobre o personagem BRUCUTU (Alley Oop é o nome original nos EUA). Escolhi este personagem para meu primeiro post, pois Brucutu é o primeiro personagem da pré-história criado. E, na vida real, é justamente na pré-história que os primeiros vestígios da arte sequencial se originaram, através dos hieroglífos nas rochas, solo e madeira, onde os povos registravam sua história, idéia e forma de vida. Vocês já ouviram falar ou conhecem este personagem mas, por via das dúvidas, é bom relembrar, para que não caia no esquecimento do limbo do tempo. Assim como Super-Homem e milhares de outros personagens, Brucutu teve muita dificuldade em se estabelecer com sucesso no mercado, percorrendo um longo caminho entre sua primeira concepção até sua primeira publicação. Acompanhe sua trajetória.



O ARTISTA E SUA ARTE



Vincent Thomas Hamlin, nascido em Perry, Iowa (EUA), em 10 de maio de 1900, dotado de aptidão artística, Hamlin sempre desenhava em seu tempo livre. Aos 16 anos de idade, Hamlin chegou a vender alguns de seus cartoons para o jornal local The Iowan Perry Daily Chief. Em 1917 ele mentiu sobre sua idade para servir no exército na 1º Guerra Mundial, onde foi enviado a França como parte do 6º Grupo de Transportes do Exército Motor, e aproveitava seu talento para ilustrar as cartas dos companheiros soldados. No exército, conheceu um jornalista que o inspirou a buscar esta profissão posteriormente. Ferido por gás venenoso, Hamlin foi hospitalizado e depois enviado de volta para casa, em sua cidade natal, voltando a estudar aos 19 anos na Perry High School, onde integrava o time de futebol e publicava seus cartoons no anuári da escola, O Eclipse. Em 1920 foi para Universidade de Missouri, depois estudou jornalismo na Universidade Drake, em 1922, onde desistiu da escola devido a desavenças com um professor que não era adepto de cartoons. Após a faculdade, Hamlin atuou como jornalista nos jornais Des Moines News, Texas Grubstakers Newspaper e Ford Worth Record. Nesta época, Hamlin criou FLIP & FLAP, uma de suas primeiras tiras. Flapper, uma menina muito melindrosa e seu namorado eram seus personagens. Esta tira nunca teve sucesso, mas é possível notar a tendência característica dos personagens de Hamlin, principalmente na parte mais grossa nos braços e pernas. Veja abaixo:



Até que em 1923 foi contratado pela Fort Worth Star-Telegram, atuando como fotógrafo, escritor e, finalmente, cartunista. Neste jornal ele criou sua primeira história em quadrinhos, TRUTH - THE HAND HIRED, com quatro painéis ilustrados. Clique na capa para baixar:



Em 1926, Hamlin casou-se na véspera de Natal com sua namorada de colégio Dorothy Stapleton. Eles se tornaram pais em 1927 com o nascimento de sua filha Theodora e, em 1936, tiveram Jon. Nesta época, já conhecido como artista, Hamlin criou THE PANTHER KITTEN (O GATINHO PANTHER), um jornal esportivo em quadrinhos que narrava crônicas do time de baseball do Texas, Texas Baseball League's Fort Worth Panthers, o qual possui uma pantera como mascote. Veja abaixo:



Buscando uma remuneração maior, Hamlin empregou-se como fotógrafo e cartógrafo numa revista para companhia de petróleo do Texas, produzindo também trabalhos artísticos e publicitários para esta indústria. Atuando num ramo onde os fósseis eram abundantes, Hamlin apaixonou-se pela geologia e a paleontologia, onde se originou sua grande inspiração pela pré-história. Em 1930, quando a revista entrou em colapso, Hamlin e sua família retornaram para Perry, Iwoa, dando a Hamlin a oportunidade e tempo de desenvolver um projeto de sua autoria. Fantasiando os homens primitivos e dinossauros (que eram pouco conhecidos naquela época), Hamlin criou A MIGHTY OOP (O PODEROSO OOP), numa primeira tentativa de tiras de quadrinhos neste segmento. Descontente com o resultado, destruiu todos os desenhos deste projeto.

No ano seguinte, Hamlin persistiu na idéia e atualizou o projeto. Ele uniu sua inspiração pré-história à experiência adquirida nos acertos e fracassos de Flip & Flap, Truth e o Gatinho Panther, evoluiu a idéia e criou ALLEY OOP, um homem das cavernas simpático e carismático, rodeado de amigos, companheiros, namorada, dinossauro de estimação, em histórias com delicioso senso de humor.



O nome Alley Oop foi inspirado na série sobre acrobatas franceses Allez Oup. A primeira tira de Alley Oop estreou em 5 de dezembro de 1932 pelo Sindicato Bonnet-Brown e, obviamente, não era colorida como na imagem acima. Porém, para desespero de Hamlin e sua esposa, tal sindicato também faliu devido suas dívidas à antigos empregados. Mas desta vez seu trabalho havia sido notado por um empregado da Newspaper Enterprise Association (NEA), que rastreou o artista e contratou-o em 7 de agosto de 1933, para um trabalho muito mais amplo, mais estável, e de enorme circulação. Suas tiras eram publicadas diariamente e, um ano depois, edições especiais aos domingos. Veja abaixo a primeira tira original de Alley Oop:



Alley Oop transformou-se num sucesso imediato entre os leitores, que amaram o personagem e, principalmente, o tema inédito, sendo a primeira tira característica da Idade da Pedra. Logo, Alley Oop ganhou cores e, além de suas tiras em jornais, ganhou suas próprias revistas solo. Confira abaixo algumas imagens.






Em 1939, o sucesso de Alley Oop cresceu ainda mais quando Dorothy, sugeriu que fosse adicionada a possibilidade do personagem viajar no tempo, abrangendo a gama e variedade de suas histórias. Suas tiras venderam ainda mais quando Hamlin aceitou a excelente idéia de sua esposa e, em 1939, conseguiu fazer com que Brucutu e Ula (sua constante namorada) viessem até os dias de hoje, graças a uma máquina especial do Professor Wohmung (Professor Papanatas poraqui). Graças a este artifício, Brucutu não só passou a viver divertidas aventuras no nosso mundo contemporâneo, mas também esteve na Guerra de Tróia, no Tempo do Rei Arthur e seus cavaleiros, no Egito com Cleópatra, no Mississipi, num barco típico do século passado e em muitos outros lugares e tempos. De vez em quando, tinha saudades de seu mundinho e regressava às cavernas do Reino de Mu, governado pelo Rei Guz e a Rainha Umpa, e ao seu bichinho de estimação: um gigantesco dinossauro chamado Dinny. Veja abaixo imagens de algumas de suas viajens:





Como um veterano da Primeira Guerra Mundial, Hamlin se sentiu compelido a participar da Segunda Guerra Mundial em 1942. Ele tentou se alistar, mas foi recusado pelo oficial de recrutamento devido sua idade avançada de 42 anos. Frustrado, mas não satisfeito, Hamlin combateu nesta guerra apoiando os EUA, usando sua arte e seu personagem Alley Oop para promover o alistamento e visitando soldados feridos em batalha. Suas tiras eram inspiradas em suas visitas aos terrenos militares, onde ele costumava desenhar e distribuír aos soldados.








No Brasil, o personagem também emplacou. Alley Oop foi traduzido por aqui como BRUCUTU. Uma palavra bem brasileira, um termo usado para caracterizar algo grotesco, carrancudo, pouco gracioso. O nome combinou com o personagem que ganhou sua publicação solo no país, na qual se manteve durante um bom tempo.

  • BRUCUTU | VOLUME 1 | 1960 a 1968 | 48 edições | Ed. RGE
  • BRUCUTU | VOLUME 2 | 1971 a 1974 | 18 edições | Ed. Saber
  • COLEÇÃO GIBI | 1940 a 1951 | 44 edições | Ed. O Globo
  • GIBI | 1939 a 1950 | 1.739 edições | Ed. O Globo
  • ALMANAQUE DO BRUCUTU | 1955 | Ed. Rio Gráfica

Segue abaixo 2 hq's do Brucutu para vc conferir: A edição 2, original americana, de 1963 e a edição 9 brasileira, do 2º volume, de 1972. Clique nas capas para baixar:




Hamlin conta que, quando estava criando a idéia para Alley Oop, primeiro pensou em colocar uma família dos dias de hoje naquele tempo em que as pessoas viviam nas cavernas. Chegou a desenhar algumas tiras, mas desistiu da idéia. Uma sábia decisão, pois o personagem Alley Oop, da forma que é, teve sucesso comprovado não só pelas suas tiras, mas em sua inserção na cultura popular com diversos outros produtos, e em veículos de comunicação que abraçaram este personagem como força publicitária. Veja abaixo alguns exemplos:

1930 | PROJETOR DE FILMES - A Movie Jecktor Company de Nova Iorque fabricava projetores caseiros, e imagens para serem projetadas nele. Um de seus projetos foi a criação de curtas-metragens estrelando personagens populares dos quadrinhos, como Michey Mouse, Buck Rogers e, é claro, Alley Oop.



1936 | TÍTULO GRANTS PASS CAVEMAN SOCIETY - No verão de 1936, Hamlin e sua esposa Dorothy viajaram para o noroeste, instalando-se na cidade de Wilderville, uma pequena aldeia de cabanas de madeira, próximo a Grants Pass, Oregon. Lá, Hamlin foi homenageado como membro honorário da Grants Pass Caveman Society (Sociedade dos Homens das Cavernas de Grants Pass). Esta sociedade civil formada em 1922 por um grupo de empresários, promovia as viajens pela Oregon Caves National Monument (Monumentos Nacionais das Cavernas de Oregon). Tais empresários se vestiam com peles de animais (simulando homens das cavernas) e abordavam celebridades que viajavam pelo local. Meio tosco, mas promovia com sucesso o turismo em suas cavernas históricas.



1937 | JOGOS - Fabricado pela Toy Royal Company, THE GAME OF ALLEY OOP se tornou popular pois adaptavam imagens das próprias tiras dos quadrinhos. O conceito do jogo se baseava em tentar virar as peças do jogo em um recipiente. Também foi criado um jogo de tabuleiro com o personagem. Confira abaixo:



1960 | MÚSICA - Escrito por Dallas Frazier e produzido por Gary S. Paxton da famosa banda Argyles, ALLEY OOP foi a primeira hit single em 1960. Esta música foi regravada por muitos outros artistas, incluindo Dante & The Evergreens, Dyna-Sores, Frei Tuck, The Beach Boys, inclusive, ROBERTO CARLOS. Isso mesmo, no disco Canta para a Juventude, a faixa 2 chama-se BRUCUTU, e é a versão brasileira da música original dos Argyles. Com os royalties dos direitos autorais da música, Hamlin conseguiu comprar um carro novo, popular esportivo vermelho, de patrão. Clique nos links abaixo e baixe as músicas:


1960 | ESTATUETA - O personagem Alley Oop ganhou a honra de receber um grande prêmio dos quadrinhos americanos chamado BECO.

1965 | PARQUE - Iraan, Texas é o suposto berço de Alley Oop, quando Hamlin originou a idéia das tiras sobre dinossauros, enquanto trabalhava para companhias de petróleo. A ALLEY OOP FANTASY LAND (Terra da Fantasia Alley Oop) foi construída e, em 10 de maio de 1965, comemorou o aniversáriode 65 anos de Hamlin. Uma das características do parque é a estátua de 65 metros de Dinny.



1966 | EDIÇÕES INTERNACIONAIS - No seu auge, Alley Oop era publicado por mais de 800 jornais diários, incluindo revistas em quadrinhos e alguns livros. Trabalhos traduzidos e publicados pelo mundo todo. Obviamente, em alguns países o personagem ganhou nova tradução para seu nome, como TRU-CUTÚ em El Salvador, e BRUCUTU no Brasil.



1978 | ANIMES - Alley Oop entrou para o Fabulous Funnies, uma série de curtas animados com os personagens mais populares da época, que era transmitido nas manhãs de sábado. Além de Alley Oop e seus amigos, estavam Broom Hilda, Nancy and Sluggo, The Captain and the Kids, entre outros. Cada desenho tinha 7 minutos de duração. Embora os personagens fossem famosos, Fabulous Funnies foi um fracasso que durou apenas 13 episódios. Porém, um dos produtores, Sam Simon, deu sorte e acabou se tornando um dos produtores de Os Simpsons.



1995 | SELO POSTAL - O serviço postal dos EUA divulgou um conjunto de selos comemorativos chamado Classic American Comic Strips, comemorando o aniversário de 100 anos de histórias em quadrinhos no país. Alley Oop foi incluído neste grupo, juntamente com Krazy Kat, Katzenjammer Kids, The Yellow Kid, Príncipe Valente, Dick Tracy, entre outros.



1990 | REIMPRESSÃO - As tiras de Alley Oop foram reimpressas várias vezes, mas não com tanta qualidade quando nesta obra da Kichen Sink Press. Criação do cartunista Dennis Kitchen, foi responsável por reimpressão das obras de grandes outros artistas clássicos dos quadrinhos.



2002 | BONECO - A editora de quadrinhos Dark Horse publicou o conjunto Classic Comic Characters (Personagens Clássicos dos Quadrinhos). Alley Oop foi o número 28 desta série que adaptou outros grandes personagens como Popeye, Pogo Possum, L'il Orphan Annie, Blondie, The Schomoo, etc (eu sei que vc não conhece a maioria mas, naquela época, todos estes estouraram na cultura pop das tiras americanas).



2005 | MUSICAL - Esta adaptação musical das tiras de Alley Oop foi encenada por uma empresa de Fort Worth. A produção apresentou todos os personagens do universo Oop. O diretor musical Michael H. Price também foi responsável pelo musical de R. Crumb (outra adaptação dos quadrinhos).



20008 | 75º ANIVERSÁRIO - Em 8 de agosto de 2008, Alley Oop comemorou 75 anos, celebrando com 2 tiras especiais, reunindo muitos amigos de Alley Oop, entre outras imagens divulgadas, como a de sua evolução caricata, desde sua estréia até os dias de hoje.







Vincent Thomas Hamlin atuou trabalhando com Alley Oop por quase 40 anos. Em 1950, Dave Graue foi contratatado como seu assistente e assumiu as tiras de Oop nos jornais em 1967, quando Hamlin se afastou dos desenhos devido a problemas de visão que dificultavam seu trabalho. Hamlin continuou escrevendo até 1973, quando se aposentou. Dave Graue se uniu a Jack Bender prosseguir com o personagem e, até hoje, Jack Bender e sua esposa Carole Bender carregam a tocha de Alley Oop acesa sem maiores modificações à tira original. As tiras diárias atuais de Alley Oop vc pode conferir neste site.

Após sua aposentadoria, Hamlin e sua esposa se mudaram para Brooksville, Flórida. Ele ainda escreveu vários livros, incluindo sua autobiografia "O Homem que andou com Dinossauros". Há quase 50 anos de casados, Dorothy faleceu em 1985, após enfrentar uma longa doença. Hamlin faleceu em 1993, aos 93 anos, devido ao câncer. Ao contrário de muitos outros artistas, Hamlin é um dos exemplos daqueles que puderam desfrutar o sucesso de seu trabalho em vida.

Mais informações sobre Alley Oop neste site.
Abraço!

7 comentários:

  1. Camarada, eu sou fã do Brucutu (Alley Oop), e já li praticamente tudo o que foi publicado, nas tiras diárias de O Globo, do Suplemento Juvenil, de O Globo Juvenil, da Rio Gráfica, da Saber, e muitos álbuns em espanhol (lá ele é o Trucutu), e também alguns almanaques em inglês...

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  2. Poxa, que massa Delto!
    Confesso que não conhecia o Brucutu, até o Jorge Hata me apresenta-lo. Acabei pesquisando e realmente encontrei muitas referências legais e diversos fãs do personagem. Caso tenha algum material que enriqueça nossa matéria, escaneie, escreva e nos envie que nós acrescentaremos ao texto ;-)
    Abração
    Rubens Junior

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  3. Camarada, o Brucutu (alley Oop) foi criado em 1932 e existe, ininterruptamente nas tiras diárias, até hoje - As suas melhores aventuras, são quando ele viaja na Máquina-do-Tempo, indo para todas as épocas da história da humanidade, interagindo com personagens históricos, viajando também para o nosso tempo atual, e até indo para o futuro – o link na web, com suas tiras diárias é; http://www.gocomics.com/alley-oop

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  4. Brucutu é uma lembrança da infância, pois meu pai gostava muito destes quadrinhos. Mas depois nunca mais tive notícias.

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  5. Amigo, esplendorosa sua retrospectiva sobre Alley Oop (Brucutú). Parabéns! Entretanto encontrei um pequeno lapso. A primeira tira não é aquela. Se quiser posso lhe enviar por e-amail. Enquanto isso, convido-lhe a visitar o blog: http://portaldogibinostalgia.blogspot.com.br/ Cordialmente, José Pinto de Queiroz Filho

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  6. Caro, que espetáculo sua matéria. Tenho 50 anos, colecionei na época, e ainda tenho todos os exemplares do Brucutú, da editora SABER (e existe a 19º edição, a qual você não citou).
    Meu pai foi quem me apresentou o personagem, pois lia "Gibi" e "Suplemento Juvenil", quando criança.
    Hoje, consegui a coleção completa da Rio Gráfica e mais o Almanaque do Brucutú de 1955 (tenho dois exemplares).
    Parabéns, novamente, pelo material produzido.

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  7. Alo amigos:
    Como que eu poderia comprar o Boneco do Brucutu, tenhos suas HQ, mais não tenho o personagem em PVC .
    Grato]
    Reinaldo Moraes
    rodriguesmoraespp@terra.com.br

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